5.9.25

nítido nulo

"Essa coisa de ressuscitar ao terceiro dia, mesmo que fosse ao terceiro do terceiro - palhaçadas, não. Morrer, mas por inteiro».

10.5.15

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

( Carlos Drummond de Andrade )

26.12.10



carlos drummond de andrade


cada irmão é diferente.
sozinho acoplado a outros sozinhos.
a linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
a linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.
são seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
que léguas de um a outro irmão.
entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
a casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
são estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?


14.12.10




Lawrence Ferlinghetti



"(...) Dádá devia ter gostado de um dia como este
com este sol de lâmpada eléctrica
que ilumina de uma forma tão diferente
pessoas diferentes
mas que ilumina de modo tão idêntico
toda a gente
e tudo
tal como
um pássaro que vai cantar
um avião numa nuvem debruada a ouro
uma mão com um esfregão
a acenar à janela
ou um telefone que vai tocar
ou uma boca que vai deixar de
fumar
(...)"



24.10.10




ana hatherly


eu não sou a que aparece
eu sou a que me inventei

sou sem ninguém
ébria de escrita
vou renascer do meu fim

inclina-te a mim:
tenho asas!


21.3.10



afinal o que importa. é não ter medo




1.1.10




fernando pessoa


tão ABSTRATA é a ideia do teu ser
que me vem de te olhar, que, ao entreter
os meus olhos nos teus, perco-os de vista
e nada fica em meu olhar, e dista
teu corpo do meu ver tão longemente,
e a ideia do teu ser fica tão rente
ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
sabendo que tu és, que, só por ter-me,
consciente de ti, nem a mim sinto.
e assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
a ilusão da sensação, e sonho,
não te vendo, nem vendo, nem sabendo,
que te vejo, ou sequer que sou, risonho,
do interior crepúsculo tristonho
em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


1.11.09




jorge de sena


meu corpo, que mais receias?

-meu corpo, que mais receias?
-receio quem não escolhi.
-na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
ao toque leve e ligeiro
o corpo torna-se inteiro,
todos os outros ausentes.
os olhos no vago
das luzes brandas e alheias;
joelhos, dentes e dedos
se cravam por sobre os medos...

meu corpo, que mais receias?

-receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
de longe, os corpos que vi
me lembram quantos perdi
por este outro que terei.


30.9.09



herberto helder



...então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo...


25.9.09



eugénio de andrade



Toda a manhã
fui a flor
impaciente
por abrir.

Toda a manhã
fui ardor
do sol
no teu telhado.

Toda a manhã
fui ave
inquieta
no teu jardim.

Toda a manhã
fui ave ou sol ou flor
secretamente
ao pé de ti.



21.2.09




eugénio de andrade

a mão
que entregava à tua
os primeiros sinais do verão
já não sabe o caminho - é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante.
ou ignorar fosse todo o saber.




22.11.08




herberto helder - fonte - I


ela é a fonte.
eu posso saber que é a grande fonte
em que todos pensaram. quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo ---
cada um pensava na fonte.
era um manar
secreto e pacífico.
uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

ninguém falava dela, porque
era imensa. mas todos a sabiam
como a teta. como o odre.
algo sorria dentro de nós.

minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente.
meu pai lia.
sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
era a fonte.

eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
a lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

hoje o sexo desenhou-se. o pensamento
perdeu-se e renasceu.
hoje sei permanentemente que ela é a fonte.




29.7.08




crespúsculo - david mourão ferreira


é quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
quando a noite se destaca
da cortina;
quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
quando a força de vontade
ressuscita;
quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
e quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.


6.7.08




ana luísa amaral - fingimento poético


"finge tão completamente"



Faz-me falta a tristeza
para o verso:
falta feroz de amante,
ausência provocando dor maior.

Tristeza genuína, original,
a rebentar entranhas e navios
sem mar.
Tristeza redundando em mais

tristeza, desaguando em métrica
de cor.
Recorro-me a jornal, mas é
em vão. A livros russos (largos

e sombrios).
Em provocado rio de depressão,
nem zepellin: balão
a ervas rente.

Um arrastão sonhando-se
navio.
Só se for o que diz o que
deveras sente.

A sério: o Zepellin.
Mas coração:
combóio cuja corda
se partiu.


28.6.08




sofia crespo - anunciada embarcação na histeria




desviei para leste do diabo
onde existe uma terra,

colinas secas que prolongam
o dorso de um cabo maldito,

encerrado de imensas histórias de fim
e um gigantesco mar de água.

nos dias de menos fogo,
os pescadores juntam-se,

à volta de um balde sem fundo,
e tentam pescar a terra.

o sol já não existe para este lado,
e quando da onda há outra força,

pelo lado direito existe, igualmente,
um começo de noite, um diferente silêncio,

são todos os animais,
dos que se deitam tão antes dos homens.

excepto os mais inquietos,

os que ainda noite dentro
se encerram uns nos outros

e ficam horas deslocadas
a fornicar a cor que o céu nesta terra tem,
que é a cor de uma suspeita de trabalhos.
quando vim para aqui seria para evitar o caos,
bem longe de tempo ser tempo,
e fabricando alguma paixão e
passar menos quente nas almas dos outros.



26.6.08




camilo pessanha - clepsidra


madalena



...e lhe regou de lágrimas os pés e os
enxugou com os cabelos da sua cabeça.
evangelho de S. Lucas.

ó Madalena, ó cabelos de rastos,
lírio poluído, branca flor inútil...
meu coração, velha moeda fútil,
e sem relevo, os caracteres gastos,

de resignar-se torpemente dúctil...
desespero, nudez de seios castos,
quem também fosse, ó cabelos de rastos,
ensanguentado, enxovalhado, inútil,

dentro do peito, abominável cómico!
morrer tranqüilo, - o fastio da cama...
ó redenção do mármore anatómico,

amargura, nudez de seios castos!...
sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
ó Madalena, ó cabelos de rastos




21.6.08




ana hatherly - tisanas


era uma vez uma ausência que andava em missão de viagem. quando chegava a uma encruzilhada dava três voltas sobre si própria para perder por completo a noção do caminho por onde viera atingindo assim com regularidade as regiões efémeras do esquecimento. depois regressava a casa.




17.6.08




ana luísa amaral - silogismos



A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)



15.6.08

8.6.08




ana luísa amaral - ritmos


e descascar ervilhas ao ritmo de um verso:
a prosódia da mão, a ervilha dançando
em redondilha.
misturar ritmos em teia apertada: um vira
bem marcado pelo jazz, pas
de deux: eu, ervilha e mais ninguém

de vez em quando o salto: disco sound
o vazio pós-moderno e sem sentido
ah! hedónica ervilha tão sozinha
debaixo do fogão!

as irmãs recuperadas ainda em anos 20
o prazer da partilha: cebola, azeite
blues desconcertantes, metamorfose em
refogados rítmicos

(debaixo do fogão só o silêncio frio)